Duas semanas na Bósnia. O país que lembra.
Sarajevo, Mostar, Blagaj. Viagem onde a história não é decoração — ela ainda está nas paredes, nos nomes das ruas, nos silêncios. Um país que insiste em ser compreendido antes de deixar você aproveitá-lo.
A maioria dos países tem um passado. A Bósnia tem uma presença. A guerra terminou em 1995. Isso foi há trinta anos. Em termos históricos, anteontem.
Você chega a Sarajevo e consegue ver isso nos prédios, se souber para onde olhar — e você sabe para onde olhar já na primeira hora, porque a cidade não esconde nada. Os reparos são visíveis. Alguns prédios ainda têm as marcas e ninguém as remendou. Não como memorial, não como monumento. Apenas como um registro do que aconteceu, deixado ali porque as pessoas que vivem lá não precisam de lembretes e não se importam muito em curar a história para os visitantes.
É isso que torna a Bósnia diferente de qualquer outro lugar por onde já viajei na Europa. O passado não é apresentado. Ele está presente.
Chegando lá, e no que você está se metendo
Sarajevo é servida por um pequeno aeroporto internacional. Voos de Viena, Istambul, Munique, Londres. Poucas conexões diretas da maioria das cidades — a Bósnia não está no circuito turístico principal como a Croácia ou a Eslovênia se tornaram, e isso é parte do que torna a viagem valiosa.
O trajeto do aeroporto até a cidade leva aproximadamente 20 minutos. No caminho, a estrada passa por Dobrinja — um subúrbio que ficava na linha de frente do cerco. Os blocos de apartamentos foram repintados na maioria dos casos, mas o layout do bairro — ruas que terminam abruptamente, vãos entre prédios que não deveriam existir, uma geometria que não faz muito sentido — reflete o que aconteceu. A cidade foi redesenhada pela artilharia. Parte desse redesenho ainda é visível.
Fiquei em Baščaršija, o antigo bazar otomano. É o distrito de mercado medieval mais intacto que já vi na Europa — mais intacto que o Grande Bazar de Istambul, menos turístico que o centro histórico de Dubrovnik. Vielas estreitas, oficinas de cobre, mesquitas, um mercado coberto do século XVI, e cafés que servem café bósnio da maneira tradicional: uma pequena džezva de cobre, um copo de água, um cubo de rahat lokum, sem leite, sem pressa.
Sarajevo: três dias no mínimo, cinco é melhor
A cidade recompensa a atenção lenta.
O Túnel da Guerra de Sarajevo (Tunel spasa — Túnel do Resgate) são 800 metros de passagem subterrânea escavada à mão sob o aeroporto de Butmir, controlado pela ONU, entre 1993 e 1995. Foi o único elo entre a cidade sitiada e o mundo exterior durante a maior parte do cerco. 340.000 pessoas ficaram presas em Sarajevo por 44 meses — o cerco mais longo de uma capital na história da guerra moderna, mais longo que o Cerco de Leningrado.
O túnel é hoje um museu, mantido pela família que era dona da casa na extremidade da cidade. Eles estavam lá durante o cerco. O pai, hoje com mais de setenta anos, às vezes passa por ali e conversa se você fizer as perguntas certas. Não há audioguia. Há um curto documentário, filmado durante o cerco, que passa em loop. Dura cerca de vinte minutos. Está entre os vinte minutos mais perturbadores que já passei em qualquer museu.
O mercado de Markale é onde dois ataques de morteiro — em fevereiro de 1994 e agosto de 1995 — mataram um total combinado de 105 civis. Há uma placa. O mercado ainda funciona. As pessoas compram legumes, queijo e pão nas bancas ao lado da placa. Achei isso mais difícil de digerir do que os espaços formais do museu — não porque fosse mais gráfico, mas porque a continuação da vida cotidiana ao redor do memorial pareceu uma representação mais honesta de como a atrocidade é absorvida por uma cidade do que qualquer monumento.
O Museu Nacional da Bósnia e Herzegovina abriga a Hagadá de Sarajevo — uma das Hagadot mais antigas ainda existentes no mundo, produzida em Barcelona por volta de 1350, trazida a Sarajevo por judeus sefarditas expulsos da Espanha em 1492, escondida por um curador muçulmano durante a ocupação nazista em 1941, e escondida novamente em um cofre de banco durante o cerco em 1992. O museu que a abriga esteve, ele próprio, sob fogo durante o cerco. O objeto sobreviveu mais do que sua vitrine deveria ter permitido.
Caminhe pela cidade e você passará, em poucos quarteirões, por uma igreja católica, uma igreja ortodoxa, uma mesquita e uma sinagoga. Essa era a característica definidora de Sarajevo — as quatro religiões coexistindo em uma cidade pequena, cada uma com seu próprio bairro mas compartilhando as ruas. Foi isso que fez da cidade um alvo durante a guerra. É isso que a torna digna de ser compreendida agora.
Mostar: uma noite, talvez duas
Mostar fica a três horas ao sul de Sarajevo de carro, ou quatro de ônibus através de montanhas que tornam a viagem digna do tempo extra. O rio Neretva tem um verde-azulado que parece artificial — uma cor que pertence a uma piscina em vez de um rio — e a antiga ponte (Stari Most) que dá nome à cidade se arqueia sobre ele em um único vão otomano que existe desde 1566, foi destruído pelas forças croatas em 1993, e foi reconstruído e reaberto em 2004.
A ponte é Patrimônio Mundial da UNESCO. No auge do verão, fica muito lotada. Em maio ou outubro, menos.
O que é preciso entender sobre Mostar é que a cidade ainda está dividida. A linha de batalha de 1993–1994 corria aproximadamente ao longo do Neretva, com as forças bosníacas na margem leste e as forças croatas na oeste. O cessar-fogo formal foi assinado em 1994. A divisão informal da cidade — em termos de quais cafés as pessoas frequentam, quais escolas as crianças estudam, qual partido político recebe qual voto — não se dissolveu completamente em trinta anos.
Isso não é dramatizado para turistas. Você precisa procurar por isso. Uma conversa com um morador local vai dizer de qual lado do rio ele cresceu antes de dizer quase qualquer outra coisa sobre si mesmo. A geografia da cidade não é neutra.
A margem leste é o circuito turístico: o antigo bazar, a mesquita Koski Mehmed Pasha com sua vista do minarete sobre a ponte, a tradição do mergulho (jovens pulam da ponte por doações de turistas, uma prática que antecede o turismo em séculos). A margem oeste é menos visitada e tem café melhor. Vá até lá.
Blagaj: uma tarde
A vinte minutos de Mostar de carro, o rio Buna emerge já formado de uma face rochosa aos pés de uma montanha — uma das maiores nascentes cársticas da Europa, produzindo 43 metros cúbicos de água por segundo a partir de um sistema subterrâneo que ninguém mapeou por completo. Na boca da nascente fica um tekke (mosteiro) derviche do século XVI, construído no penhasco, ainda ocupado pela ordem Bektashi.
Há um restaurante na nascente. A truta é criada na própria água da nascente. Comê-la observando a água jorrar da rocha sólida em um volume que faz o ar parecer diferente é uma das refeições agradáveis mais desconcertantes que já tive.
O que a Bósnia exige de você como viajante
Não digo isso como uma injunção moral. Digo em termos práticos: a Bósnia é um país que não encena sua história para os visitantes. Não desvia você das partes difíceis. Não traduz a complexidade em uma narrativa simplificada que se resolve limpamente no fim do passeio.
O conflito de 1992 a 1995 é descrito de maneira diferente dependendo de quem você pergunta. As perspectivas bosníaca, sérvia e croata sobre a guerra não estão reconciliadas em um único relato e provavelmente não estarão durante minha vida. O papel da comunidade internacional — a falha da ONU em Srebrenica, o atraso na intervenção da OTAN, o embargo de armas que deixou os civis bósnios incapazes de se defender — está documentado e contestado simultaneamente.
Você receberá versões dessa história de motoristas, guias, donos de hotéis e a pessoa na mesa ao lado. As versões não vão concordar entre si. A resposta certa não é arbitrar entre elas. A resposta certa é ouvir todas elas e sair com um retrato mais complicado do que aquele com que você chegou.
É para isso que a viagem lenta realmente serve. Não a ponte. Não o túnel. A conversa que te deixa menos certo do que quando você se sentou.
Notas práticas
Estação: Maio e setembro são ideais. O verão é quente (Mostar em julho regularmente chega a 38°C) e lotado no circuito turístico. O inverno é frio e algumas acomodações fecham.
Idioma: Bósnio, croata e sérvio são mutuamente inteligíveis e oficialmente distintos. O inglês é amplamente falado em Sarajevo, menos nas cidades menores. O café bósnio é servido sem leite; pedir leite não é rude, mas não é para isso que você está ali.
Locomoção: Sarajevo é caminhável. Um carro é necessário para Mostar e Blagaj. Ônibus circulam entre as principais cidades, mas demoram mais do que deveriam e os horários variam.
Dinheiro: O marco conversível bósnio (BAM), atrelado ao euro. Extremamente acessível em relação ao resto da Europa — uma refeição completa em um bom restaurante de Sarajevo custa entre €10 e €15. Quartos de hotel em Baščaršija começam em €40.
Leia antes de ir: A Ponte sobre o Rio Drina, de Ivo Andrić (Prêmio Nobel, 1961) — um romance que abrange 400 anos de história bósnia centrado em uma ponte em Višegrad. Sarajevo Marlboro, de Miljenko Jergović — contos escritos durante o cerco. O Violoncelista de Sarajevo, de Steven Galloway (ficção, mas uma orientação útil). Não-ficção: Bosnia: A Short History, de Noel Malcolm. Denso, acadêmico, essencial.
O que fica com você
Passei a última tarde em Sarajevo na Fortaleza Amarela (Žuta Tabija), um promontório acima da cidade antiga com vista sobre toda a bacia do vale onde a cidade está assentada. As montanhas estão perto — 1.200 metros, visíveis de qualquer lugar. Durante o cerco, essas montanhas sustentavam os canhões. Dá para ver o campo de tiro a partir da fortaleza. Dá para entender por que a cidade era impossível de defender.
Um homem na casa dos quarenta se sentou ao meu lado e, depois de alguns minutos, perguntou de onde eu era. Conversamos por uma hora. Ele tinha doze anos quando a guerra começou. Contou-me sobre a experiência particular de crescer em uma cidade sitiada — não as partes dramáticas, que estão bem documentadas, mas a textura daquilo. O tédio. O absurdo de tentar fazer o dever de casa sem eletricidade. A forma como o caráter das pessoas se revelava sob pressão sustentada.
"Achávamos que o mundo viria rápido," ele disse. "Estávamos enganados sobre o mundo."
Ele disse isso sem amargura. Era apenas um fato que ele tinha aprendido, como as montanhas estão perto e a nascente de Blagaj produz 43 metros cúbicos por segundo. Ele havia integrado aquilo.
É isso a respeito da Bósnia: as pessoas integraram coisas que quebrariam a maioria dos lugares. O país não perdoou — perdão exige uma conversa que ainda não aconteceu entre as partes —, mas está funcionando. As pessoas criam filhos, abrem restaurantes, discutem sobre futebol e consertam buracos nas ruas. História e vida cotidiana ocupam o mesmo espaço sem se resolverem uma na outra.
Não sei o que fazer com isso além de dizer que merece ser visto.
Fontes e leituras adicionais
- Malcolm, N. (1994). Bosnia: A Short History. New York University Press.
- Andrić, I. (1945). The Bridge on the Drina. (trad. Lovett F. Edwards, 1959). University of Chicago Press.
- Jergović, M. (1994). Sarajevo Marlboro. (trad. Stela Tomasević, 1997). Archipelago Books.
- Rieff, D. (1995). Slaughterhouse: Bosnia and the Failure of the West. Simon & Schuster.
- UN Secretary-General. (1999). Report of the Secretary-General Pursuant to General Assembly Resolution 53/35: The Fall of Srebrenica. United Nations.
- UNESCO World Heritage Committee. (2005). Old Bridge Area of the Old City of Mostar. UNESCO.
- Siege of Sarajevo: 5 April 1992 – 29 February 1996. Duration: 1,425 days. Sources: International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia (ICTY).